SUBINDO UMA ESCADA ROLANTE QUE ESTá DESCENDO...


O título acima foi inspirado num fato real que presenciei em um Shopping, no qual um garotinho tentava, com muito esforço, vencer o desafio de subir na contramão de uma escada rolante que descia.

Tal episódio, sem maiores implicações, a não ser para a mãe desesperada que buscava resgatar o filho daquela aventura, inspirou-me a seguinte reflexão:

Quantos de nós já não nos sentimos em situação semelhante à daquele garoto, ao enfrentarmos o desafio de nos manter em dia com relação à gestão de nosso conhecimento e à atualização de nosso capital intelectual?

Missão hercúlea que tende a se agravar com o passar dos anos, se considerarmos que a curva da geração de novos conhecimentos se dá de maneira exponencial.

Por exemplo: a maioria dos livros, quando publicados, já estão defasados em relação ao pensamento e à experiência de seus respectivos autores. Constatei este fato mais de uma vez ao participar de workshops com mega-experts que nos solicitaram para que esquecêssemos o que haviam escrito em seus últimos livros (ainda que best-sellers), pois pretendiam nos apresentar o rascunho de um livro ainda por publicar.

Uma pesquisa recente revelou que é comum às pessoas navegarem cerca de 2 horas por dia na internet (talvez em resposta à sede de atualização que a maioria de nós possui). Por outro lado, a mesma pesquisa dava conta que um internauta típico permanece, em média, cerca de 9 segundos no mesmo item, antes de mudar para outro assunto. Qualquer semelhança com uma criança esbaforida, correndo de um lado para outro, em um parque de diversões, no afã de desfrutar da maior quantidade possível de brinquedos num menor espaço de tempo, não terá sido mera coincidência. Em ambas situações, encontramos pessoas empenhadas numa corrida frenética, como se tivessem tentando alcançar a linha do horizonte...

Outra constatação possível na metáfora da escada rolante é que aqueles que param a fim de recobrar o fôlego, não estagnam, mas regridem, impelidos pela inércia, tendo em vista a direção contrária dos degraus. Ou seja, descansar sobre os louros do passado traz a agravante da obsolescência. Por sinal, vale ressaltar que a origem etimológica da palavra obsolescência é «estar acostumado».

Além disso, é preciso tomar consciência que, diferentemente do que ocorria na era da informação (na qual, quem a detinha, exercia o poder), na era do conhecimento, o mesmo cresce quando compartilhado, numa autêntica economia da abundância, em contraposição à economia da escassez, da era anterior. Ou seja, a informação virou commodity e o simples acumular das mesmas não mais confere vantagens competitivas a seus detentores. Principalmente se considerarmos a socialização do acesso e à democratização das oportunidades representadas pela Internet, para citar apenas uma fonte.

Assim sendo, podemos extrair as seguintes conclusões desta reflexão:
  1. Cuidado para que não venhamos dizer, de boca cheia, que temos "X" anos de experiência (num determinado assunto ou profissão) imaginando com isso estarmos dando uma cartada definitiva em nosso(s) interlocutor(es), num típico jogo de pôquer cultural. Entre outras razões, por dois motivos principais: a) talvez porque não tenhamos (por exemplo) 30 anos de experiência em um determinado campo ou assunto, mas, quem sabe, apenas um ano de experiência multiplicada por 30, se a partir do segundo ano nós só nos repetimos na rotina de vida; b) vale lembrar que quem costuma descobrir novos paradigmas, freqüentemente pertence à geração que está chegando, por isso mesmo, descomprometido com a defesa do status quo e, em decorrência, aberto às novas possibilidades.
  2. Mais importante que aprender (coisas novas) é aprender a desaprender (aquilo que não agrega mais valor). Ou seja, aliviar nossa mochila de tudo o que está arcaico, ultrapassado e obsoleto. Até porque, temos uma tendência de agir por ato reflexo em situações às quais já estamos habituados e acionar o repertório de respostas de nosso "piloto automático", independente de estarem atualizadas, ou não, com as melhores práticas.
  3. Estamos vivendo a tendência da policompetência e da multifuncionalidade. Mais que nunca, a sociedade atual valoriza o ecletismo, exigindo que saiamos de nossa "zona de conforto" para vivermos num ambiente pluralista, onde se respira uma saudável tensão criativa. Se lidarmos de forma bem-sucedida com este desafio, podemos alcançar o patamar da metacompetência, no qual fornecemos além do que esperam de nós, pela intersecção de dois outros tipos de competências: a) essencial (que caracteriza o perfil de profissionais tidos como referência em seus campos de atuação); b) transversais (atributos complementares à área de atuação desses mesmos profissionais).
  4. Levar em conta que estamos todos cursando a escola da vida, a qual, diferentemente da escola formal, não concede diplomas (nunca paramos de aprender) e onde não há período de férias (continuamos a aprender diariamente, com qualquer pessoa e em todos os lugares).
    Para isso, basta que tenhamos a humildade intelectual de um aprendiz, a curiosidade natural de uma criança, a disciplina de um virtuose e o entusiasmo contagiante de quem gosta do que faz.
  5. Finalmente, nem por isso menos importante, o novo conceito de velhice não é mais cronológico, mas sim, o estágio em que paramos de aprender. Neste sentido, podemos encontrar uma pessoa extremamente lúcida aos 90 anos e, por outro lado, um garotão de 18 anos, decrépito e sofrendo de catatonia intelectual, do alto de sua pretensa auto-suficiência.
© Américo Marques Ferreira
Consultor do MVC