PROCESSO DECISÓRIO EM EQUIPE:
ARMADILHAS E PREVENÇÕES
A palavra “DECIDIR”, em sua origem etimológica, significa “MATAR ALTERNATIVAS”.
Portanto, se quisermos tomar uma decisão só precisamos escolher uma das opções, abrindo mão de todas as outras disponíveis.
Simples não? Nem sempre.
Quem já se viu em frente a um buffet de sobremesas, todas igualmente atraentes, por certo se sentiu angustiado, já que angústia é prerrogativa de quem tem opção. E isto ocorre exatamente pelo dilema de precisar escolher uma sobremesa em detrimento das demais. A solução freqüentemente adotada para tais casos é pegar um pouco de cada e, ao final da refeição, pedir um cafezinho sem açúcar, ou quem sabe com três gotinhas de “HIPOCRISIL”. Pelo menos serve para atenuar o sentimento de culpa decorrente do pecado da gula.
Se muitas vezes já é difícil tomar individualmente uma decisão, certamente o processo decisório será tão mais complexo quanto maior for o número de pessoas a expressar seus pontos de vista sobre determinado assunto.
Como harmonizar as múltiplas preferências, buscando manter o grupo coeso em torno da opção escolhida, sem correr o risco de perder oportunidades frente ao prazo disponível?
Imagine por exemplo, a situação de uma família que resolve sair para jantar num sábado à noite: o casal, juntamente com um filho de 7 anos, uma filha de 15, acompanhados pelos avós maternos na faixa dos 70 e ainda por uma tia solteira na faixa dos 30 anos.
Que método utilizar para chegar a um acordo sobre onde comer, o que comer, qual o horário e a duração do jantar?
Aqueles que já enfrentaram este dilema acabaram por adotar uma das seguintes soluções:
  • Ir a uma praça de alimentação, permitindo assim que cada um escolha sua opção, marcando um horário e ponto de encontro para o retorno conjunto.
  • Ficar em casa degustando uma culinária doméstica.
  • Ligar para uma pizzaria, confirmando a tendência de “tudo acabar em pizza”.
  • Declarar sua incompetência para negociar e reconhecer como é difícil contemplar preferências tão distintas.
A fim de facilitar o processo decisório em equipe, vamos examinar os seguintes métodos de tomada de decisão e suas respectivas armadilhas e prevenções:
  • Omisso
  • Autocrático
  • Democrático
  • Sociocrático
1. MÉTODO OMISSO
1.1. Frases típicas
  • “Deixa como está pra ver como é que fica”.
  • “Mais escuro que meia noite não fica”.
  • “Muito ajuda quem não atrapalha”.
1.2. Modelo mental
  • Qualquer decisão que implique em assumir responsabilidades basta adotar o “PRINCÍPIO DE NOÉ” dizendo: ”ISTO NOÉ COMIGO”.
1.3. Armadilhas
  • Se o grupo for imaturo poderá também ficar aguardando a iniciativa de quem detém o poder, sob a alegação de que “não se deve fazer pelos outros aquilo que os outros são pagos para fazer”.
  • Os participantes podem ainda assumir a posição cômoda de que, se algo der errado, é só botar a culpa no líder.
  • Surgir um líder prepotente e manipulador que assuma o comando do grupo (neste caso, vide o método autocrático).
  • A omissão poderá também levar à fragmentação do grupo em várias facções que passarão a lutar para impor seus ideais uma às outras.
1.4. Prevenções
  • O líder omisso deve tomar consciência de que errar por omissão é mais grave do que errar por ação, até porque “erra-se 100% dos chutes que não se dá”.
  • Conhecer seus pontos fortes e suas limitações, bem como, o perfil dos integrantes de sua equipe. Com base neste conhecimento abrir espaços para as contribuições baseadas no que cada um tem de melhor, de modo a levar a equipe a atuar numa relação de interdependência cooperativa.
  • Estabelecer um clima de reconhecimento pelas contribuições e celebrar as pequenas conquistas, infundindo assim confiança para que os participantes possam tomar decisões que impliquem em correr riscos calculados.
2. MÉTODO AUTOCRÁTICO
2.1. Frases típicas
  • “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
  • “Prudência e caldo de galinha não faz mal a ninguém”.
  • “Escreveu não leu, o PALCO É MEU”.
2.2. Modelo mental
  • “Eu sou apenas o máximo, o resto é figuração”.
2.3. Armadilhas
  • Ao se posicionar como única “cabeça pensante” o líder autocrático reduz todo o restante do grupo (ou seria melhor dizer BANDO?) à mera condição de “mão de obra”.
  • Ao agir assim, adota a estratégia do desperdício, na medida em que obriga os participantes de seu grupo a estacionarem seus cérebros e corações lá fora antes de entrarem para o trabalho.
  • Tal estratégia do desperdício se caracteriza pela sub utilização de competências preciosas (representadas metaforicamente pelos cérebros e corações) que por sinal, já estão inclusos no salário quando alguém assina um contrato de trabalho.
  • O método autocrático conduz ainda à “PAZ DE CEMITÉRIO”, pelo cerceamento de idéias divergentes e pela censura ao saudável exercício do contraditório, levando a infantilização da equipe pela acomodação ao binômio “DOMINAÇÃO – PASSIVIDADE”.
  • Finalmente, o exercício da autocracia acaba por tornar um líder no gargalo de processo, em função da dependência da equipe à sua centralização.
2.4. Prevenções
  • Abrir mão da síndrome messiânica deixando de considerar-se como o “SALVADOR DA PÁTRIA”.
  • Conscientizar-se de que posturas autocráticas integram o perfil de uma espécie em extinção: ditadores, caudilhos, coronéis, senhores feudais e demais exemplares do “PARQUE JURÁSSICO ORGANIZACIONAL”.
3. MÉTODO DEMOCRÁTICO
3.1. Frases típicas
  • “Vox Popoli Vox Dei” (A voz do povo é a voz de Deus).
  • “Não se pode agradar a gregos e a troianos”.
  • “Não se faz omelete sem quebrar os ovos”.
3.2. Modelo mental
  • “A razão está sempre do lado da maioria”.
3.3. Armadilhas
  • Ao precipitar uma votação, antes do assunto estar devidamente debatido, pode-se deixar a minoria com o gosto amargo da derrota.
  • Tal fato poderá levar à formação de subgrupos, desencadeando a perda de sinergia em decorrência, na melhor das hipóteses, do descomprometimento para com a tese adotada ou, em casos extremos, provocar atos de sabotagem em relação à idéia vencedora. .Ao longo do tempo, tal método poderá estimular o surgimento de alianças circunstanciais baseada em agendas ocultas, conluios, troca de favores ou revanchismos.
  • No limite, tal equipe (ou seria melhor dizer AJUNTAMENTO DE PESSOAS?) poderia fragmentar-se em subgrupos estanques, cada qual demarcando seu território, exigindo lealdade de seus correligionários e considerando como inimigos a todos que não fazem parte de sua “PANELINHA”, culminando por instalar uma autêntica “COMPETIÇÃO PREDATÓRIA INTRAGRUPAL”.
3.4. Prevenções
Entender que o método democrático é adequado quando:
  • O universo a ser pesquisado é muito numeroso para identificar preferências, como numa eleição, por exemplo.
  • Temos limitação de tempo para adotar uma solução, tornando os custos/benefícios compensatórios comparativamente a eventuais desgastes decorrentes de uma votação.
  • Quer-se evitar o risco do “assembleísmo”, pondo fim a táticas protelatórias e evitando-se assim o imobilismo no processo decisório.
4. MÉTODO SOCIOCRÁTICO
4.1. Frases típicas
  • “Até um relógio parado, duas vezes por dia, está certo”.
  • “Toda unanimidade é burra”.
  • “Saber vencer é tão importante quanto saber perder”.
4.2. Modelo mental
  • “Todos nós juntos somos melhores do que qualquer um de nós isoladamente”.
4.3. Armadilhas
  • A ênfase à busca do consenso pode protelar uma decisão a ponto de perder prazos e oportunidades.
  • No afã de obter a adesão de todos, pode-se fazer tais concessões que acabe por gerar uma solução híbrida com perda do foco e a conseqüente fragilização da consistência dos argumentos que sustentam uma tese.
4.4. Prevenções
  • A primeira fase do método sociocrático é igual à do método democrático, ou seja, após o debate de uma matéria, procede-se a uma votação preliminar.
  • Constatada a existência de divergência de opiniões, a palavra é oferecida, em primeiro lugar, a um representante da minoria para expor seus pontos de vista referente à posição defendida.
  • Em seguida, um representante da maioria ressalta os aspectos positivos de sua tese.
  • À minoria, então, é assegurado o direito à tréplica, reforçando mais uma vez os pontos favoráveis de seus argumentos.
  • Nova verificação de votos é feita para checar se houve mudança de opinião, de parte a parte. Caso ainda persista a divergência entre maioria e minoria, passa-se à fase seguinte.
  • A maioria, respeitando os argumentos da minoria, pede CONSENTIMENTO daqueles participantes para apoiarem a tese da maioria.
  • A prática tem demonstrado que, com tal tratamento, a minoria oferece seu consentimento à maioria, passando por apoiar a tese vencedora, sem restrições, divisões ou revanchismos.
CONCLUSÕES:
A utilização do método sociocrático tem-se demonstrado vantajosa em relação aos outros três métodos, pelas seguintes razões.
  1. Enseja a livre manifestação de idéias, de forma ordenada e respeitosa.
  2. Disciplina os participantes a se ouvirem mutuamente, melhorando o nível de comunicação.
  3. Preserva a unidade da equipe, evitando a perda de sinergia pela sensação de derrota que uma votação mal conduzida acarreta.
  4. Embora requeira um pouco mais de tempo do que a votação do método democrático consiste em um caminho mais seguro para se alcançar o comprometimento de todos com os resultados almejados.
Américo Marques Ferreira
Consultor Sênior do Grupo MVC