| Líder: Especialista em Relacionamentos |
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Parece haver consenso de que o ser humano é, na essência da sua natureza, um ser de relacionamento.
No exercício da liderança esse fato assume importância ainda mais marcante e decisiva, pois os líderes podem ser capazes de produzir marcas profundas, tanto positivas quanto negativas, no relacionamento com os seus liderados.
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Conhecer e praticar cada vez mais, melhores ações na busca de relacionamentos produtivos – não repetitivos – é a competência que todas as lideranças deveriam ter em níveis bastante elevados.
Aprender, entender, compreender e refletir sobre o processo da dinâmica do comportamento humano deveria se constituir em um dos principais campos de interesse e estudo por parte daqueles que exercem liderança. Afinal das contas, as pessoas que exercem qualquer tipo de liderança deveriam ser, antes de tudo, "especialistas" em gente, e não apenas em coisas.
Infelizmente, a realidade tem me comprovado que é grande o número de pessoas em posições de liderança que ignoram os princípios elementares e básicos que orientam, direcionam e motivam o comportamento das pessoas.
Foi com base em observações e comentários identificados durante os trabalhos que tenho realizado que selecionei quatro questões bastante simples que me parecem merecer atenção por parte dos líderes.
- APRENDER A "SENTIR".
São comuns os líderes partirem da equivocada premissa de que devem fazer para os seus colaboradores, o que gostariam que fizessem com eles. Equivocadamente, raciocinam a agem apenas com base nos seus próprios desejos.
Desconhecem que os interesses, anseios, desejos, valores e motivações não são iguais para todos. As histórias das pessoas são diferentes, logo o que é importante e valioso para o líder não é necessariamente para seus colaboradores.
Esquecem, que o ser humano é um ser histórico, com valores, crenças, conhecimentos e interesses adquiridos e desenvolvidos através de processos de socialização completamente diferenciados.
Para não cometer enganos e injustiças, é imprescindível que os líderes "aprendam a sentir" as posições dos seus liderados, ouvindo com atenção os seus anseios e planos com relação à vida e ao trabalho.
A qualidade do líder, não está apenas em conversar, mas sim em sentir e ouvir, com atenção os outros.
Aprendi com o querido amigo e estudioso do comportamento humano Milton Oliveira, em seu livro "Energia Emocional", que "é ilusão acreditar que conversando a gente se entende". Milton afirma que "é sentindo que a gente tem muito mais chances de entendimento".
É freqüente uma conversa se transformar em um "monólogo alternado quando não há sentimento e empatia", comentário feito por outro profissional que também muito admiro e estimo, Sylvio Zilber, especialista em criatividade e inovação.
É fundamental que os líderes conheçam muito bem o que todos os seus colaboradores gostem e o que não gostem de fazer; o que julgam que realizam muito bem e o que acreditam que precisam melhorar; o que valorizam mais na vida e o que não ocupa um lugar de destaque na hierarquia de suas ambições pessoais e profissionais.
Esta iniciativa fortalece a posição do líder, pois dará a ele condições de melhor utilizar as potencialidades e motivação daqueles que estão ali para contribuir, para alcançar os objetivos da empresa que lidera. Conhecendo as opiniões e sentimentos de seus colaboradores, os líderes contribuem para o despertar do sentimento de "pertencimento", fator essencial para que a motivação brote, cresça e se desenvolva.
- APRENDER A CONVIVER.
Em todas as situações nas nossas vidas, passamos por momentos favoráveis e desfavoráveis. É natural e inevitável. No trabalho, no casamento, nas relações com nossos filhos, amigos, parentes, sócios e parceiros existem momentos extremamente gratificantes. Mas também acontecem situações de conflito que não nos agradam e até nos irritam profundamente.
Não somos, também, absolutamente iguais, constantes, uniformes e estáveis, durante todos os dias do ano. Em certas ocasiões, todos nós temos o direito de ficar aborrecidos, desmotivados, pensativos e sem grande disposição para agir. Admitir, compreender e aceitar, que todas as pessoas podem sentir-se menos felizes e satisfeitas em certos instantes da vida, é uma questão que nem sempre é lembrada no exercício da liderança. Sentir-se triste, inseguro, desmotivado ou mesmo raivoso, não são direitos exclusivos dos "chefes", mas de todos nós.
A anormalidade reside na intensidade da freqüência com que essas situações acontecem. É o conhecido comportamento ciclotímico (psicose maníaco-depressiva), que se caracteriza por variações abruptas, da alegria à depressão, e que precisam ser vistas pela liderança como um caso para acompanhamento médico.
Buscar e manter a serenidade para compreender que tudo isso é inerente às relações interpessoais, é extremamente sadio e construtivo.
Tenho comprovado, ainda, que quando as divergências de opiniões ou de sentimentos entre as partes deixam de existir, pode ser um sinal evidente de que as relações estão às vésperas de uma separação, de um desenlace. O fato é que abandonamos nossas relações profissionais e pessoais, quando não investimos tempo e atenção para buscar aperfeiçoá-la.
As desistências em manter produtivos e reciprocamente gratificantes os nossos relacionamentos não acontece apenas pela separação física, mas principalmente pela separação no plano psicológico.
Existem muitos líderes que simplesmente "ignoram", por razões de divergências, a contribuição e a presença de seus colaboradores, criando um clima de trabalho hostil, desconfortável e profundamente antagônico. O mesmo pode acontecer nos demais relacionamentos em nossas vidas. Embora os protagonistas estejam fisicamente presentes, a "ausência" é absolutamente sentida e percebida. É a conhecida situação onde as "pessoas estão presentes, mas de espírito ausente".
Não é à toa, também, que existe uma verdade popular com relação aos relacionamentos fracassados que afirma: "a pior solidão é a dois". Já imaginaram como deve ser desconfortável "uma solidão vivida no trabalho, com a presença de um número maior de pessoas?".
Os verdadeiros líderes conseguem enxergar que nem todas as coisas boas andam sempre juntas, em todas as situações das nossas vidas e procuram enfrentá-las construtivamente, ao invés de ignorar ou apenas aguardar que o tempo resolva.
Pode vir a ser tarde demais. Na vida não existe replay. É uma só, até que se prove o contrário.
- APRENDER A NÃO CONVIVER COM O PENSAMENTO ÚNICO.
Pensamento único faz parte de ambientes de trabalho onde não há lugar para a criatividade e inovação. Só reina a mediocridade e a mesmice.
Novamente recorro a dois importantes ensinamentos de Sylvio Zilber:
1 - "A pior idéia é a solitária".
2 - "O pensamento único é quase sempre sinal de servilismo".
As pessoas saudáveis mentalmente aprendem a conviver com opiniões e sentimentos contrários aos seus, dando inteligência às suas emoções, por mais difíceis que os momentos possam vir a ser.
Um gerente, que trabalhou diretamente com o falecido presidente da TAM, Comandante Rolim, afirmou em entrevista que uma das suas principais qualidades como líder era a de "ser curioso e atento a todas às opiniões diferentes das suas".
Se a sua opinião como líder é normalmente a única a prevalecer, tome cuidado e comece a prestar atenção nos seus comportamentos. Provavelmente existem algumas coisas erradas na sua maneira de liderar pessoas. Não é possível, no mundo real, que as pessoas não tenham nenhuma opinião a respeito de como realizar determinados trabalhos, diferente da posição do líder. Neurônios existem na cabeça de todos nós.
Não é privilégio apenas das pessoas que exercem a liderança.
- APRENDER QUE ENCONTRAMOS NAS PESSOAS AQUILO QUE PROCURAMOS.
Esta é uma questão fundamentalmente relacionada aos valores e as crenças pessoais.
Se nos ensinaram, durante a nossa trajetória da vida que: a maioria das pessoas quer tirar proveito próprio de todas as situações; a lei do menor esforço é a que impera na situação de trabalho; as pessoas somente estão interessadas em ganhar dinheiro; a iniciativa e criatividade são privilégios de uma minoria especial de pessoas; as pessoas resistem brutalmente às mudanças e que os líderes precisam empurrá-las, fatalmente isso terá reflexos diretos na maneira e forma como os líderes vão tratar os seus colaboradores. O líder que assim pensa e age, irá encontrar, no seu dia-a-dia, pessoas exatamente iguais àquelas que correspondem aos valores por ele apregoados. E ficará muito feliz e radiante por ter conseguido encontrar exatamente aquilo que estava previamente procurando.
Lembre-se que os "deuses" sempre nos dizem sim. Eles evitam nos contrariar.
Picasso também dizia algo semelhante: "Se você está procurando, é porque já encontrou!".
Na realidade do dia-a-dia encontramos muitos líderes que adotam comportamento prescritivo, pré-conceituoso e dogmático a respeito de pessoas e de grupos. Tenho visto que muitos deles mudaram o "vocabulário" no trato com seus "colaboradores" (já não dizem mais "subordinados"), depois de freqüentarem programas de treinamento tradicionais de liderança, mas permanecem com as mesmíssimas premissas de valores a respeito de gente. De nada adianta!!
Líderes são pessoas que acreditam, genuína e autenticamente, não ingenuamente, que as pessoas podem crescer, se desenvolver e contribuir, se estiverem sendo lideradas como pessoas potencialmente interessadas e contributivas.
Tenho expectativas de que esses comentários contribuam para que os líderes reflitam sobre como andam conduzindo seus diversos relacionamentos, tanto na vida pessoal e profissional.
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João Alfredo Biscaia
Consultor do Instituto MVC
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